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1 João 5:20 análise erudita

A interpretação de 1 João 5:20 constitui um dos pontos frequentemente invocados em debates cristológicos. O texto da Almeida Revista e Atualizada declara: “Sabemos também que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.”

Alguns sustentam que o pronome demonstrativo “este” (grego: οὗτος, hoútos) se refere a Jesus Cristo, tomando o versículo como prova de que o Filho é identificado como “o verdadeiro Deus”. Contudo, sob análise exegética mais detida levando em conta sintaxe, uso joanino do demonstrativo e contexto teológico imediato essa conclusão não se impõe necessariamente ao texto.

Considerações gramaticais sobre hoútos

No grego koiné, o demonstrativo hoútos não está rigidamente vinculado ao antecedente mais próximo. Com frequência, ele retoma o sujeito temático predominante do argumento, ainda que este não seja o último substantivo mencionado. Esse fenômeno é amplamente reconhecido na literatura bíblica e extrabíblica. O próprio apóstolo João emprega construções anafóricas semelhantes em outras passagens (cf. 1 João 2:22; 5:6), nas quais o demonstrativo resume ou reforça o ponto central previamente estabelecido. Assim, a alegação de que “este” deve, por regra gramatical, referir-se a “Jesus Cristo” por ser o termo mais próximo carece de base linguística absoluta. A gramática permite e o estilo joanino favorece que hoútos retome “aquele que é o verdadeiro”, mencionado anteriormente no versículo.

O fluxo argumentativo do versículo

O contexto imediato revela uma progressão lógica:

1- O Filho de Deus veio.

2- Ele concedeu entendimento.

3- O propósito é conhecermos “aquele que é o verdadeiro”.

4- Estamos em união com “aquele que é o verdadeiro”.

5-Essa união se dá por meio do Filho.

A ênfase recai repetidamente sobre “aquele que é o verdadeiro” (ton alēthinón). Jesus é apresentado explicitamente como o mediador dessa relação, não como o referente primário da designação “o verdadeiro”. A construção culmina com a afirmação: “Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.” Dentro dessa sequência temática, o antecedente natural é “aquele que é o verdadeiro”, isto é, o Pai.

Harmonia com a teologia joanina

A interpretação deve igualmente considerar o conjunto da teologia de João. No Evangelho, registra-se a oração de Jesus ao Pai:“Isto significa vida eterna: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.” — João 17:3.Aqui, o Pai é explicitamente denominado “o único Deus verdadeiro”, enquanto Jesus é distinguido como o Enviado. A Primeira Epístola de João reflete a mesma distinção ontológica e funcional entre Deus e seu Filho (1 João 4:9, 14).Portanto, entender que 1 João 5:20 reafirma o Pai como “o verdadeiro Deus” mantém coerência interna com o corpus joanino e com o monoteísmo estrito que permeia as Escrituras Hebraicas e Cristãs.

Considerações teológicas na perspectiva das Testemunhas de Jeová

À luz da exegese contextual e gramatical, as Testemunhas de Jeová entendem que o pronome “este” refere-se a Jeová Deus, o Pai. Essa leitura:Preserva a distinção clara entre o Pai e o Filho.Harmoniza-se com João 17:3.Mantém a consistência do monoteísmo bíblico.Reconhece o papel singular de Cristo como Mediador (cf. 1 Timóteo 2:5).

Longe de diminuir a dignidade do Filho, essa compreensão destaca sua posição exaltada como o agente por meio de quem recebemos entendimento, reconciliação e esperança de vida eterna.

Conclusão

A identificação de Jesus Cristo como “o verdadeiro Deus” em 1 João 5:20 não decorre de exigência gramatical inequívoca, mas de uma leitura influenciada por pressupostos trinitários posteriores ao texto apostólico.Quando se permite que o contexto literário, o uso joanino de hoútos e a teologia interna do Novo Testamento orientem a interpretação, a conclusão natural é que o versículo reafirma:Jeová é o único Deus verdadeiro;Jesus Cristo é o Filho de Deus, distinto do Pai;A vida eterna procede do Pai, por meio do Filho.Assim, a interpretação defendida pelas Testemunhas de Jeová apresenta-se como uma leitura contextual, coerente e linguisticamente sustentável do texto inspirado, comprometida com a integridade do monoteísmo bíblico e com a exatidão exegética.

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