O uso de ἀδελφός (adelphós) nos EvangelhosTexto-base Mateus 13:55–56
οὐχ οὗτός ἐστιν ὁ τοῦ τέκτονος υἱός; … καὶ οἱ ἀδελφοὶ αὐτοῦ Ἰάκωβος καὶ Ἰωσὴφ καὶ Σίμων καὶ Ἰούδας; καὶ αἱ ἀδελφαὶ αὐτοῦ…
O substantivo ἀδελφός (adelphós), no grego koiné, possui sentido primário de “irmão do mesmo ventre”. Embora possa, em contextos mais amplos, designar parentes ou correligionários, o uso comum no Novo Testamento indica vínculo fraternal direto.
Observações lexicais: BDAG (3ª ed.) define o sentido primário como “male sibling”.
Quando o Novo Testamento deseja expressar “primo”, utiliza-se ἀνεψιός (anepsiós) — cf. Colossenses 4:10.
A construção de Mateus 13 é concreta, nominal e familiar, listando nomes próprios, o que favorece leitura literal.
Não há no contexto imediato nenhum marcador semântico que sugira parentesco ampliado ou metafórico.
2. A construção de Mateus 1:25 ἕως οὗ (héōs hou)
Texto grego: καὶ οὐκ ἐγίνωσκεν αὐτὴν ἕως οὗ ἔτεκεν υἱόν.
Verbo: γινώσκω (ginṓskō) no imperfeito indicativo — “não a conhecia”, eufemismo semítico para relações conjugais.
A expressão ἕως οὗ (“até que”) estabelece um limite temporal.
Questão sintática: Em construções narrativas, ἕως normalmente indica mudança posterior ao ponto delimitado, salvo quando o contexto claramente indica permanência (o que não ocorre aqui).
Comparações: Mateus 2:15 — “ficou ali até (ἕως) a morte de Herodes” → pressupõe mudança após a morte.
2 Samuel 6:23 (LXX) — “Mical não teve filhos até (ἕως) o dia de sua morte” → aqui o contexto impossibilita mudança posterior, mas isso ocorre por impossibilidade lógica, não por força do termo.
Em Mateus 1:25 não há impedimento contextual que sugira continuação da abstinência após o nascimento.
O termo πρωτότοκος (prōtótokos) Lucas 2:7καὶ ἔτεκεν τὸν υἱὸν αὐτῆς τὸν πρωτότοκονπρωτότοκος = “primogênito”
Lexicalmente: Indica o primeiro filho nascido.
Em contexto jurídico judaico, implicava direitos legais (Êxodo 13:2). Se o autor quisesse enfatizar exclusividade absoluta, poderia usar μονογενής (monogenḗs) (“único gerado”), como em Lucas 7:12; 8:42.
A escolha de πρωτότοκος sugere ordem de nascimento, não unicidade absoluta
João 7:3–5 e a distinção entre Jesus e seus irmãosοὐδὲ γὰρ οἱ ἀδελφοὶ αὐτοῦ ἐπίστευον εἰς αὐτόν.
O texto distingue Jesus de seus irmãos descrentes. Se fossem apenas “discípulos” ou parentes distantes, o contraste perderia força narrativa. A construção reforça unidade familiar distinta do círculo apostólico.
Considerações histórico-teológicasA doutrina da virgindade perpétua é formalizada nos séculos IV–V (ex.: Jerônimo).
Seu argumento principal depende de: Interpretação ampliada de ἀδελφός.
Leitura restritiva de ἕως.
Suposição de filhos de José de casamento anterior (hipótese não mencionada no texto bíblico).
Do ponto de vista metodológico (sola Scriptura), tais inferências excedem o dado textual explícito.
Conclusão Exegética A análise lexical e sintática do grego koiné sugere:
ἀδελφοί em Mateus 13 e Marcos 6 possui sentido natural de irmãos biológicos.
ἕως οὗ em Mateus 1:25 estabelece limite temporal sem indicação contextual de perpetuidade.
πρωτότοκος em Lucas 2:7 indica primeiro filho, não filho único.
Não há evidência textual direta que sustente virgindade pós-parto.Assim, dentro de uma hermenêutica histórico-gramatical, a doutrina da virgindade perpétua de Maria não se fundamenta no texto grego do Novo Testamento, mas em desenvolvimento teológico posterior.
O Publicador do Reino